ERA uma vez que já não é mais um par de seres humanos aparentemente do sexo masculino que eram meio suspeitos meio não-suspeitos. Tão meio suspeitos porém que suspeitavam de si mesmos, a metade suspeita invadia a metade não-suspeita 51% 52% e assim por diante eles não eram muito nem pouco seguros quanto a sua sexualidade. A certeza de ser homem, em outras palavras gostar de mulher, ser = gostar, não permanecia estável por muito tempo em suas mentes até que uma violenta enxurrada de incertezas espinhosas (...) terrível destrutível avalanche de dúvidas petrificadas arenosas desintegrantes resultada de uma grave erosão cerebral descesse furiosa rolando inchando pico a baixo arrastando consigo embolando sem qualquer piedade memórias & neurônios & massa cinzenta & tudo misturado dando forma ou melhor deforma a uma imensa gororoba híbrida não individuada que deslizava e crescia como uma bola de neve quente ou de lava fria naquele complexo e no entanto frágil monte de retalhos que era sua mente retalhada. Não é por acaso que a "mente" tem esse nome; em vez de ser chamada de "diz a verdade". Os rapazes não eram muito seguros por si mesmos ou seja quase morriam de medo de querer segurar um no outro de repente e às vezes se distanciavam por conta disso. Quase morriam mesmo, de medo. Severas vezes em estado grave na UTI, o Último Território para os Indefinidos, por causa do medo & choques reanimadores para recuperar o ânimo & respiração boca a boca sempre executada por um enfermeiro aproveitador & que quando discutia teatro alegava não acreditar em beijo técnico, baboseira beijo técnico. Não sabiam nem muito nem pouco bem quanto a sua sexualidade, aquele suspeitíssimo par de seres humanos meio totalmente suspeitos, muito pouco senhores de si, talvez até mesmo senhoras. Não sabiam nem mesmo se a sua sexualidade era realmente sua; podia ser de outro, nunca se sabe. Vai saber. Detestavam com muito ódio que se referissem a eles como a um par; por isso diziam ser ímpar, pois de par a dupla é um pulo; e de dupla a casal é outro, um pulinho – ai. Quando um trovão rasga o céu com virilidade traçando no mesmo suas belíssimas estrias elétricas ramificadas anunciando o temporal que está por vir, amplificando seu estrondo por toda a extensão da terra, alguns adultos dizem para algumas crianças que se trata de Deus arrastando seus móveis, mudando a disposição de sua mobília para dar um novo visual aos cômodos do Paraíso; quando enfim cai a chuva, ejaculada com força pelas pesadas nuvens negras, dizem se tratar de Deus chorando ou lavando o chão do seu divino apartamento ou simplesmente derramando baldes d’água sobre nossas cabeças quentes e confusas com o intuito de lavar e refrescar a superfície deste velho e gasto, pretensioso planeta; um talentoso decorador de trejeitos afeminados que sempre tirara boas notas em provas porque decorava toda a matéria com muita facilidade morreu e quando chegou aos aposentos celestes a primeira coisa que fez foi observar ao redor para notar a decoração, e logo exclamou admirado e boquiaberto dizendo que achara “divino”; e quando neva, por fim, dizem se tratar do esperma de Deus congelado pelo frio caindo em bonitos flocos para semear o nosso fértil imaginário. Disseram: apoiamos com veemência a legalização do aborto porque toda gravidez é inevitavelmente grave, está no nome – gravidez; e quando é grave demais, o aborto pode ser legal; pois quando é grave demais, de uma maneira ou de outra algo é abortado; em certos casos, trata-se de escolher entre abortar ou abortar-se. É esta a tal lei da gravidade de que tanto falam, mas a qual nunca aprovam. As dúvidas sobre (e sob) a sexualidade eram tão fortes tão fortes que por causa da incontável quantidade de energia psíquica que exigiam materializavam fétidas bolas de carne má que rolavam trêmulas em alta velocidade ao redor das paredes internas do crânio dos pobres (talvez) garotos. Visualizem aquele famoso número de cinco quer dizer de circo no qual um motoqueiro kamikaze todo de couro preto feito um cavaleiro sadomasoquista gira com sua motocicleta espetacular no interior de um enorme globo metálico desafiando a morte e soltando faíscas, era mais ou menos mais pra mais do que pra menos assim o terrível temível espetáculo que se enrolava na parte de dentro de suas cabeças consumidas e sobrecarregadas pela dúvida; espetáculo horroroso observado arregaladamente por todos os neurônios nervosos apavorados boquiabertos & trêmulos feito finos músculos estriados que se convulsionam involuntariamente e têm propensão à câimbra; nada pior nesse mundo (ou em qualquer outro mundo) do que câimbra no cérebro, ou no cerebelo, ou no bulbo, algo que não se deseja nem para o seu melhor amigo; por causa da impossibilidade, intrínseca à vida, de se ter certeza absoluta a respeito de nós mesmos, os coitados pensavam tanto em sexo que seus neurônios aos poucos se transformavam em espasmódicos espermatozóides cerebrais de carne seca que aos poucos produziam e faziam escorrer grosso esperma pelas suas orelhas; neurônios enfraquecidos & que por se concentrarem tanto nos giros insanos daquele estranho e concentrado pedaço de matéria ruim acabavam prejudicando outras atividades mentais abordadas pelos que o usual, e olha que geralmente o usual é sempre mais devastador do meninos. Além disso, para completar este sinistro quadro de horror craniano, aquelas pegajosas e pálidas bolas de dúvida elástica grudavam feito chiclete em seus cérebros conforme perdiam velocidade, e isso, senhoras e senhores, senhoras e senhoras, senhores e senhores, é muito pior do que chiclete grudado em cabelo, porque o material do chiclete se confunde com o do cérebro e na hora de extrair a goma sempre acaba vindo algum miolo junto. Aquém disso, senhores-senhoras e senhoras-senhores, ambos eram muito novinhos e ainda inexperientes no que não dizia desrespeito ao sexo, ou seja pouco velhos e não possuíam nenhuma experiência sexual por mais que a rigor isso seja absolutamente impossível porque toda experiência é de alguma maneira sexual. Como a memória se vai e nesse caso o tempo foi bem mais devastador do que o tempo, não posso garantir que eram totalmente virgens; mas se fosse preciso apostar, este seria o meu cavalo. Recente pesquisa internacional revelou que 88% da polução quer dizer da população mundial não consegue dissociar os cavalos de seus pênis enormes; ouvem ou lêem ou mesmo falam a palavra cavalo e a primeira imagem que bate bruscamente contra os olhos de suas mentes é a do pênis bruto, o músculo roliço escandalosamente grosso e grande, o escuro bastão rude & malevolente que o eqüino carrega balançando como um pêndulo orgânico entre suas pernas traseiras. Não é por mero acaso que costumam apelidar de cavalos os homens superdotados que usam cueca GG (nem é preciso dizer o que essa sigla significa) até porque: nenhum acaso é mero. Como dizem aqueles estúpidos adesivos nos carros “o acaso não existe” – mas no que nos interessa tal frase não remete a nada de cósmico ou espiritual, ela apenas confirma o pau do cavalo. O pau cósmico e espiritual do cavalo; que num simples relance faz a alma do observador tremer e se arrepiar, e talvez com isso alterar o curso do seu destino. Apenas depois desta primeira porrada visual, que abala e agride violentamente todo o sistema nervoso, é que as pessoas conseguem visualizar o resto do animal, tronco, cabeça, crina, rabo. E até mesmo os outros 12% restantes, que imaginam primeiramente o animal inteiro ou alguma outra parte do mesmo que não seja o pênis é apenas porque tiveram sucesso em afastar, após um esforço hercúleo, a imagem do rolo compressor; o batom de carne, ainda sob névoas, que se anunciava ameaçadoramente no fim do aparelho psíquico. “O acaso não existe” todas estas frases bestas nos vidros dos carros só confirmam, mais uma vez, o pau do cavalo. Até porque, citando um recente artigo de jornal, “Tudo é, não existe nada que não seja por acaso; o problema é que, na verdade, são precisamente as maiores coincidências que mais nos fazem considerar ideias como destino etc.; nossa razão tende a resistir às grandes co-incidências e, entre outras coisas, pode evocar a Razão superior de Deus, este Sujeito que supostamente passaria os dias a encadear e desencadear todas as peças da existência olhando de cima, como se a Terra não passasse de um imenso tabuleiro e nós, as pequenas peças do Jogo da Vida; muitos recorrem à ideia de Deus quando estão à procura de um sentido para a vida, mas, por outro lado, se Deus existisse, onipotente, onisciente, onipresente, é que a vida não faria o menor sentido”. Disseram: só o acaso existe. Isso me faz lembrar de uma outra pesquisa, similar a do cavalo, que salientou bem salientado como quem excita uma genitália generosa a grande parcela da população universal que associa o trem, meio de transporte, ao órgão genital masculino, primeiro meio de transporte no qual todos nós um dia andamos quando ainda éramos minúsculos espermatozóides dentro do saco enrugado de papai loucos para sermos cuspidos gritando me ejacula, me ejacula! – e de pensar que um dia nós que hoje ejaculamos no interior de corpos & camisinhas já fomos nós mesmos ejaculados após fazermos um passeio radical impulsionados através de uma uretra estreita com vários amiguinhos menos sortudos – se você está vivo, você já foi sorteado: acredite: ganhar na loteria é possível – como num micro parque de diversões no interior de um corpo humano, um micro parque aquático em vez de água esperma. Os túneis por sua vez são associados às vaginas & aos cus porque são constante diretamente penetrados & rasgados & atravessados pelos furiosos & indomáveis & duros trens; trens que se entortam e se envergam e endurecem e amolecem pingando aço líquido. O que ninguém sabe, pois todo o mundo sabe que o governo insiste em esconder do povo certas e também erradas informações é que quando um trem penetra mais de uma dezena de túneis durante uma jornada de trabalho é precisamente quando ele esguicha a fumaça branca pela sua chaminé, aquele barulho que ele faz é o seu gemido metálico de prazer, o famoso piuí, o trem exige carvão para funcionar porque é a queima do mineral que o permite produzir & ejacular a sua porra a vapor através de sua uretra de ferro. Um trem elétrico como hoje existe mundo a fora (e mundo a dentro no caso dos metrôs) é mais ou menos como um pênis sexualmente ativo porém desprovido de bolsa escrotal. Por mais que a multidão que costuma andar nos metrôs entrando e saindo deles o dia todo mais pareça um bando de espermatozóides hiperativos pancados da ideia ainda assim os coitados dos trens elétricos são como homens que sofreram muito mais do que uma vasectomia, sacos totalmente retirados mesmo. Os metrôs mais arrogantes costumam dizer que não são sem-sacos, mas que na verdade praticam sexo tântrico, voluntariamente rejeitam-se a ejacular porque seria supostamente um desperdício de energia vital/ferroviária. As feministas mais ortodoxas protestaram com violência contra esta pesquisa porque nesta enquanto o homem figura como uma máquina móvel & ativa que passa os dias atravessando várias mulheres diferentes as mulheres aparecem como buracos imóveis & fiéis que ficam esperando passivamente pelos seus másculos & viris trens como donas-de-casa ferroviárias. O protesto amorteceu consideravelmente quando o órgão irresponsável pela tal pesquisa esclareceu a elas que na verdade as mulheres estavam representadas ali como buracos imóveis sim mas buracos imóveis que eram atravessados por diferentes & inúmeros trens durante a jornada e não somente por um único como faria uma dona-de-casa à moda antiga. O argumento as satisfez relativamente e dessa forma o conflito foi temporariamente encerrado, nós mesmos concordamos que se fosse para escolher entre uma coisa e outra seria muito melhor ser puta ativa do que otária passiva. Elas logo voltaram a reclamar por mobilidade, exigindo que os túneis passassem a se locomover também assim como os trens não mais esperando por estes mas indo de encontro aos mesmos, os surpreendendo quando estes menos esperassem. Vai haver um trem parado e de repente... vem um túnel aí. Voltando ao que não interessa: aqueles dois rapazes meio sei-lá, vistos de muito longe, pareciam duas formigas... Vistos um pouco mais de perto, mas ainda assim de longe, pareciam duas pessoas muito diferentes uma da outra. Tão diferentes entre si que os outros, todos aqueles que não eram eles, cochichavam com fervor, boca no ouvido feito sexo oral, dois dedinhos alargando o buraco da orelha do outro como quem separa cuidadosamente os lábios ensopados de uma vagina, quando os rapazes passavam andando sem mãos dadas, perguntando-se que Diabos eles poderiam ter em comum para serem tão amigos? Mal sabiam eles, os outros, que na verdade os rapazes tinham vários Diabos em comum, pois às vezes quando estavam sem dinheiro rachavam entre si (a famosa vaquinha) para comprarem um Diabo ou outro e depois dividiam estes Diabos alternando o uso dos mesmos. Quando um deles estava utilizando um dos Diabos, o outro usava um outro Diabo e vice-versa, depois eles trocavam, Diabo pra cá & Diabo pra lá. Os outros cochichavam com fervor, mesmo, quase ferviam um na orelha do outro feito sexo oral a ponto de sentirem o gostinho agridoce da cera alheia na ponta de suas línguas, a ponta molhadinha de suas línguas na entradinha morna da orelha do outro abismados como se se tratasse de um grande mistério do universo, um enigma milenar, as pirâmides do Egito, o Triângulo das Bermudas.
– Os opostos se atraem! – um deles dizia.
– Mas isso aí é um paradoxo! – dois deles diziam, apontando para os (talvez) rapazes. – Eles são como água e vinho, Jesus Cristo!
Tudo o que inicialmente se atrai, posteriormente se trai – é a famosa lei da atraição. Abrindo um parêntese: é preciso que parem de pensar que relação sexual só acontece quando há penetração, é a maior mentira já contada em toda a história da humanidade, não eduque seus filhos com essa mentalidade. Durante o dia e também à noite, na rua e nos escritórios, ao ar livre e no claustro, na padaria e nos açougues, nos meios de transporte popular, nos lugares púbicos, quer dizer, públicos, mais variados possíveis, bilhões de relações sexuais (e bissexuais) acontecem sem ao menos serem percebidas pelas pessoas ao redor e às vezes nem mesmo pelos próprios parceiros atuantes. O funcionário homossexual da padaria alisa suavemente as bisnagas quentes imaginando pirocas em estado de ebulição e discretamente suas pálpebras tremem e ele goza vocês sabem por onde. Ele chama a bisnaga pelo carinhoso apelido de Consolo de Trigo, daí aquele cheirinho esquisito que se misturou ao da manteiga derretida no miolo do seu lanche. Ele mete uma ponta da bisnaga no cu e contorce o tronco para abocanhar um pedaço da outra ponta, comendo o que o come, alimentando-se do que o fode. “Depois que o meu intestino trabalhar vai tudo sair pelo cu mesmo”, ele diz orgulhoso. Seu sonho desde pequeno era cagar um pênis digerido que ele teria devorado anteriormente num boquete carnívoro. O açougueiro frustrado, com seu facão enferrujado cheio de tétano, abre uma boceta no meio de um pedaço de picanha crua sangrenta, enfia o dedo ali como se fosse para limpar alguma coisa, tirar gordura ou pelanca, mas na verdade vocês imaginam (muito a contragosto, eu sei) sua verdadeira intenção. Devo divulgar – contra a vontade do meu estômago – que às vezes o açougueiro não resiste ao tesão e se retira para o banheiro do açougue com o pedaço de picanha aberta que ele acabou de seduzir
Gozo por ti meu coração com ternura.
Por ti, minha querida ruína, Maria Dura,
& caiu duro feito pedra, feito músculo ereto atrofiado, nervo esticado, bacon podre endurecido enfurecido fritando no chão quente e metálico do ônibus. Já as mulheres geralmente quando eram tocadas pela fantástica cobradora sofriam múltiplos orgasmos múltiplos, orgasmos em quantidades que desafiavam os limites da matemática & encharcavam para sempre suas calças. “Meu Deus, não há sol que vá secar isso aqui!”, ouvi uma delas exclamar certa vez com as pernas tremendo & a boca retorcida em espasmos involuntários & deixando escapar gemidos doloridos & dolorosos & gemidos que o resto dos passageiros não sabia identificar se eram de prazer ou de dor ou se a mulher estava sendo possuída por um espírito ruim como num ataque epilético nascido da catarse sexual máxima & mais de trinta passageiros esperando ansiosos atrás da mulher amontoados com impaciência atrás da roleta (mistura de rola com boceta) aguardando para serem abençoados (ou amaldiçoados?) com o todavia sagrado toque de Maria.
Costumam dizer que os seres humanos do sexo masculino pensam com a cabeça de baixo, isto é, com a cabeça do pau & esse ditado muito popular não está de todo errado, há uma explicação científica para tal fenômeno masculino. Por exemplo: depois do almoço, grande parcela do nosso sangue fica concentrada no estômago trabalhando na digestão da comida ingerida, isso faz com que nos reste muito pouco sangue no cérebro & é por isso que após passarmos por uma refeição mais farta sentimos aquela lerdeza, aquela grande moleza acompanhada de um sono quase irresistível & muito pouca disposição para exercícios físicos ou mentais. Resumindo: depois do almoço do lanche ou do jantar não pensamos direito, nosso pensamento fica temporariamente perdido no estômago. O que acontece com um homem de pau duro é muito similar, principalmente se o pau for GG: o sangue está quase inteiramente concentrado na ereção ou seja o homem está com muito pouco sangue no cérebro & não está raciocinando direito & só consegue pensar em meter a pica, transar, foder, enfiar a vara, esconder a piroca, onde for, no primeiro buraco que for, ou no primeiro buraco que apenas estiver, que ainda nem tenha se constituído como ser, não precisa nem ser, basta estar, trepar, rasgar, meter, meter, mesmo que seja por cima de mil cadáveres. Ou mesmo que seja num destes mil cadáveres. No metrô um coroa casado indo ao trabalho roça com o dorso do braço os apetitosos melões da gostosa ao lado agindo como se não percebesse, como se seu braço estivesse ali apenas porque tinha de estar, porque assim o destino queria, destino concretizado pelos empurrões intrusivos da multidão ensandecida que involuntariamente pressiona uns contra os outros e provoca pequenos encontros sexuais dados ao acaso. É absurda e inacreditável a quantidade de pênis estranhos que roçam bundas e vaginas estranhas durante o dia, nos meios de transporte lotados; se você é homem e precisa atravessar todo um ônibus cheio para saltar do mesmo, pedindo licença e se acotovelando através do corredor abarrotado, passando e roçando de bunda em bunda, de vagina em vagina, quando enfim estiver descendo do automóvel você praticamente terá somado ou reunido uma relação sexual inteira, de pedaço em pedaço que for acumulando. Assim, um empurrão intrusivo era exatamente o que o coroa sentia vontade de dar com seu pênis entre as pernas abertas daquela mulher: um empurrão intrusivo. Ele age como se não percebesse. Melões? Onde? “O acaso não existe” se isso fosse verdade seria também verdade que o braço do homem estava nos peitos da mulher porque deveria estar, porque era um fato previamente inscrito no cosmos, previamente escrito na palma da mão daquele homem, palma que estava doida para apalpar largamente aquelas tetas de enlouquecer, salientadas por um decote em V (de Vagina). Mas não vão pensando vocês que a mulher não nota que aquele toque é voluntário, ela apenas finge não notar para que seus mamilos continuem sendo acariciados pelo braço do homem no ritmo sexual do sacolejo do metrô, ela está apreciando, seus mamilos endurecem, o homem os sente durinhos em seu braço e seu pau começa a endurecer, seu sangue desaba quase todo do cérebro e desce correndo através das veias estufadas para irrigar o pau, a mulher ainda finge nada notar, discretamente ela abaixa os olhos na diagonal e enxerga o volume que incha a calça jeans do cara, seus mamilos endurecem ainda mais, o pau do cara também. Eles trocam apenas um ou dois olhares embaçados, de relance. Ambos fingem que vão olhar alguma coisa no fundo do vagão, virando a cabeça, e tanto na ida quanto na volta lançam um olhar intuitivo e desfocado no rosto do outro e logo desviam. O homem não faz a menor ideia de que a mulher também quer sexo e segue como se fosse um pervertido se aproveitando de alguém, um tarado fodendo uma vagina em estado de coma. Pois em qualquer escorregão que demonstrasse sua voluntariedade ele correria o risco de levar um tapa na cara em público e passar vergonha: e todos olhariam na direção do pau dele. A mulher continua fingindo porque sabe que se o cara notar que ela percebe vai temer o tapa na cara e parar de molestá-la. E não é que ele se incomodasse tanto assim com a ideia do tapa; levar um tapa na cara em público ainda seria um fator circunscrito em seus fetiches masoquistas. Porém, ele queria gozar aquela manhã, e o tapa seria uma interrupção muito brusca & chocante na excitação. A mulher, além dos motivos aqui já excitados não quer que o homem note sua conivência para que ela não passe por fácil, por puta, por vagabunda, vadia, piranha, arrombada. Por mais incrível que pareça esses tarados malucos podem ser muito moralistas, no final... & ela não quer ser difamada nem mesmo no pensamento mais breve de um ninfomaníaco pervertido. Então ela disfarça, se esforça para que pareça que está distraída e que é apenas por isso, por distração, que ela o permite seguir com o ato. Em outras palavras: ela finge o coma para receber o pau do tarado. Ela também quer é gozar; e continuar protegendo a sua reputação duvidosa. E nesse jogo sexual em que se encontram duas perversões desavisadas uma da outra um casal de desconhecidos goza ao mesmo tempo sem nem desconfiarem de sua sincronicidade. Momento muito mágico, totalmente cinematográfico, nada literário & não me perguntem por quê. Tudo está acontecendo, de fato, reciprocamente, mas pelo desconhecimento de ambos um do outro, em seus mundos particulares nada sai do âmbito da fantasia e do fetiche. Eles acabaram de trair seus cônjuges mas não possuem consciência disso pois nada pareceu ir além da masturbação e assim não há a menor nem a maior culpa: o ato acaba, termina, chega ao fim, quando a máquina feminina do metrô anuncia com sua voz suave & eletrônica a estação que o homem deseja. Ele sai do vagão com as calças levemente molhadas, a cueca quentinha, como se houvesse acordado de um sonho erótico e subitamente se deparado com uma realidade totalmente distinta daquela outra, tão recente e excitante. Os assuntos de responsabilidade voltam a existir e a ocupar a sua cabeça, ele volta a ter o trabalho no centro do pensamento, volta a se comportar como um homem de negócios, um homem que nega o ócio, instantaneamente apagando da mente o fato de que há apenas alguns segundos atrás se comportava como um adolescente ninfomaníaco punheteiro. Sexo, agora, já não é mais a maior causa de suas ansiedades. Mas isso dura muito pouco. A mulher fica no metrô e no seu caso o sonho se dissipa muito aos poucos, ou pouco aos muitos, mas ela logo deita o olhar ao redor à procura de outro devaneio erótico, como um passatempo automático para esta enfadonha viagem em direção ao trabalho. O mundo, a rua, a vida, notem bem, exalam tensão sexual 24 horas por dia, 07 dias por semana, 365 dias por ano (366 nos bissextos), 10 anos por década, e talvez alguns segundos a mais. Talvez a vida humana acabe e somente perdure, somente transcenda, a energia sexual. O cheiro dos paus, das bocetas e dos cus. Todos os suores, todos os sabonetes cremosos lavando lá embaixo com água splash splash splash, todas as cuecas e calcinhas ansiosas e marcadas, todas as relações sexuais sem banho depois, toda a quantidade de esperma que seca nos lençóis dos motéis, todas as camisinhas usadas e o cheiro velho delas. O cheiro do sebo, do corrimento e da menstruação, dos lubrificantes naturais e artificiais, todos os calores e os cheiros dos paus, das bocetas e dos cus. Talvez somente estes cheiros ainda acompanharão o cheiro da maresia quando, após o apocalipse, as solitárias batidas das ondas do mar ainda insistirem nas praias totalmente desertas de vida humana. Recente pesquisa mostrou que 97% das mulheres pensa na ereção de um pênis esfolado quando faz subir o batom giratório & em boquete quando o passa na boca. Mesmo aqueles outros que cochichavam com fervor boca na orelha feito sexo oral quando os dois amigos meio suspeitos meio não-suspeitos passavam juntos, mesmo aqueles outros eram também meio suspeitos, encostando suavemente a mão na lateral da face do outro, os pequenos pêlinhos do dorso da mão gradativamente se arrepiando ao lado da orelha do outro que já se prepara para receber voz suave e hálito quente no ouvido já antecipando o perigoso risco de sofrer um inesperado arrepio por toda a extensão do cangote – ui. Nesse caso o que acontece é mais ou menos como uma preliminar, e acontece sem que ao menos as pessoas tenham certeza de que se traça quer dizer de que se trata de uma anunciação sexual e não de um mero cochicho fofoqueiro. E quando esse suposto cochicho fofoqueiro se dá entre pessoas do mesmo sexo, fodeu. Quer dizer, dá medo; medo de foder.
– Putz, um dia ela veio me contar um segredo no ouvido e eu me arrepiei toda. Outro dia aconteceu a mesma coisa quando ela botou a mão no meu ombro roçando minha nuca suavemente com os dedos. Será que esses arrepios significam tesão, doutor, atração sexual? Será que sou lésbica?!
Anotem aí: quando você se arrepia com alguma coisa, ou você gosta muito dela ou você morre de medo dela; morre de medo de gostar muito dela. Das duas, uma.
– Ai, é porque minha calcinha chegou a ficar molhada; senti um calor lá embaixo e quando fui ver estava toda ensopada!
– Calma, menina. Talvez você tenha apenas se mijado de medo.
Fechando um parêntese:
– Não se esqueçam de que a água e o vinho têm uma forte relação entre si e logo não podem ser considerados opostos – três deles diziam. – Não se lembram daquela célebre passagem bíblica na qual esses dois líquidos estão intimamente associados? Não se lembram? – três deles seguiam, com um machado afiado nas mãos elevado ao nível do tampão do crânio dos outros. – Posso refrescar suas mentes, se quiserem. Na verdade, nessa tal passagem, esses dois líquidos estão tão intimamente associados que um chega a se transformar no outro! Como podem ser opostos dois elementos se um se transforma no outro com tanta facilidade? Elementos opostos seriam aqueles que quando inseridos num mesmo recipiente, por exemplo, ou por qualquer outra coisa que não seja exemplo, rejeitariam um ao outro, formando duas camadas, uma em cima, outra embaixo, sem se comunicarem.
– Mas os opostos se atraem! – gritavam cinco deles. – Homem e mulher, por exemplo, são opostos, e se atraem! Quando colocados num mesmo recipiente, por exemplo uma cama, ou um carro, ou um elevador, eles não se fundem num só corpo mas também não se rejeitam. Muito pelo contrário!
– Decerto, eles não se fundem; eles se fodem. – interrompiam quatro deles.
– Deixem-me concluir, por favor – pediam cinco deles com impaciência. – Homem e mulher numa cama realmente formam duas camadas, uma por cima outra por baixo, mas essa posição pode variar! Vocês três estavam quase certos.
– Não é exatamente assim. Equivocam-se, vocês cinco – interpelavam seis deles. – Nesse sentido a relação sexual entre homem e mulher é como o yin-yang. Não são de modo algum como dois líquidos que não se misturam num recipiente. Eles se fundem, sim, parcialmente. O homem entra na mulher com seu pênis...
– E a mulher entra no homem com a sua vagina, por um acaso? – interrompiam sete deles, em tom de refutação. – Não, obviamente não, e isso desfaz toda a sua teoria a respeito do yin-yang sexual. Mas não desanimem, vocês seis, pois não estavam de todo errados. Tenho uma nova teoria que combina alguns pedaços de suas teorias errôneas com algumas novidades, e assim eu espero poder salvar-nos do erro dessa vez. Ela começa com a mesma frase que um de vocês usou há pouco: os opostos se atraem. De acordo com a teoria que formulo, os opostos se atraem porque um dos lados está sempre buscando incorporar o outro, o lado oposto, o outro extremo, para se completar, mesmo que isso a rigor seja absolutamente impossível. A cara está sempre sendo atraída pela coroa e vice-versa, pois elas são dois lados de uma mesma moeda e quando estão separadas não formam moeda alguma. Então o que eu sugiro é o seguinte, que o homem, no fundo, está procurando o seu lado oposto, isto é, a mulher, a vagina... Mas o homem busca a vagina não apenas desejando tê-la, fora de si, como um objeto externo que ele fode ou não, e sim, ao mesmo tempo, desejando sê-la. O homem, no fundo, quer ter uma vagina em seu próprio corpo, ele quer ser mulher. Mas obviamente ele não pensa nisso de modo consciente, racional, pois tal pensamento seria tão doloroso que poderia levar alguns de nós, homens, ao suicídio, assim como levou aqueles três rapazes ali atrás, no fundo do auditório, que acabaram de se enforcar... Enfim... Encontramos alguns sinais disso nas próprias palavras que se usam, às vezes, entre casais na intimidade: a mulher pede para ser possuída, o homem diz que deseja possuir sua mulher. Notem bem a palavra possuir. O homem quer possuir a vagina de sua mulher; em outras palavras, ele quer tê-la. Esse desejo é um desejo latente, que lateja e causa muita angústia no homem, mas que mesmo assim insiste, porque ser somente homem é uma limitação muito grave, e todo ser humano se sente oprimido ao pensar nisso, ao perceber os seus limites, ao constatar a sua impossibilidade de apreender o mundo em toda a sua amplitude: ou seja, as sensações de mulher, isto é, aquelas que são sentidas objetivamente entre as pernas, um homem não pode ter, e vice-versa. Logo, o ser humano, ao se constituir como qualquer coisa única, ao se autolimitar num processo de individuação, fica reprimido, limitado, se distancia de um mundo maravilhoso onde tudo é possível – eles tossem violentamente & cospem no chão uma bola de pêlos com sangue, antes de continuarem. – A mulher, por sua vez, deseja ter um pênis. Quer ser homem, quer deixar de ser mulher, pelo mesmo motivo que o homem quer deixar de ser homem, em seus desejos inconscientes. No ato sexual é justamente onde o homem, o macho, se entrega à ambigüidade, ou mais precisamente à ambigüidade sexual, que tanto o machuca no dia-a-dia frio. E sem perceber é esta mesma ambigüidade que o excita, que o faz ter, primeiramente, uma ereção. Porque ao inserir o pênis na vagina da mulher, seu pênis some, desaparece, se esconde, basta lembrarmos daquela expressão usada em certas línguas estrangeiras ‘esconder o salame’. É como se o homem perdesse seu pênis temporariamente, como se o estivesse perdendo, tornando-se igual à mulher que está à sua frente, lisa. Isso gera muito prazer, mas ao mesmo tempo gera igual tensão, pois se tornar mulher significaria deixar de ser homem, e não é isso o que ele quer exatamente: ser apenas mulher constituiria uma limitação tão enorme quanto àquela, primeira, que gerava sua angústia sexual original. Mas ele logo retira a piroca ensopada lá de dentro e vê que ainda a possui, e isso gera um grande alívio, mas logo também retorna a tensão original, e ele quer perdê-la novamente. É como um jogo de criança, um piquesconde safado, um morto-vivo pervertido. É esse jogo mórbido e vívido ao mesmo tempo entre a tensão e o alívio, dentro e fora, respectivamente, o que constitui o prazer do ato sexual para o homem. E para a mulher exatamente a mesma coisa acontece, só que na ordem inversa. A tensão quando o homem retira o pênis. Ou melhor, quando o homem está saindo, ou entrando, ainda visível, ainda caminhando para dentro, ou caminhando para fora, semi-encaixado. A mulher, com um pênis encaixado em si, acredita ter ganhado um falo, como numa espécie de adaptador sexual, e isso gera a sua tensão, como eu havia dito anteriormente. E seu alívio, que é também o retorno da tensão original, ocorre quando o homem penetra totalmente ou retira de vez o seu pênis e volta a existir a superfície lisa, entre aspas, da boceta. O dentro-e-fora é uma oscilação constante entre tudo e nada, tudo e nada, pênis e vagina, pênis e vagina, homem e mulher, homem e mulher, morto e vivo. E vejam bem, a tensão de que falei nunca deve ser confundida com medo. É apenas uma tensão, mesmo, um conflito, uma dor prazerosa, nem mais nem menos que isso, pois o homem no cerne do seu desejo sexual inconsciente quer mesmo perder o pênis; só que ele não que perdê-lo irreversivelmente, senão isso também constituiria por outro lado, como eu já disse, uma limitação grave. Se o que ele sente é medo, é também desejo. Então, a partir disso, deduzi que o que os seres humanos estão buscando é este momento excitante em que os opostos co-existem incessantemente, alternando-se em alta velocidade, não precisando eclipsar um ao outro para entrarem
Aplausos escandalosos na academia. Algo realmente idiota. NOTA: Estamos encomendando alguns homens armados para matarem todos esses imbecis da academia: que eles discutam pra sempre. O que ninguém imaginava era que aquele forte laço de amizade que havia entre os dois rapazes do sexo masculino se dava porque no que dizia respeito à questão “opção sexual” ambos pensavam de maneira muito similar. NOTA: A expressão sexo masculino pode evocar a imagem de dois homens transando. Ambos eram da opinião de que para saberem se gostavam de mulheres ou de homens, para terem certeza de seu gosto e se decidirem definitivamente podendo seguir a vida em paz seguros quanto a sua opção sexual, precisavam experimentar dos dois para só depois concluírem. Só dessa maneira seria possível ter certeza. Exatamente como faz um consumidor cobaia de experimentos com novos produtos em supermercados que prova dois iogurtes de sabores diferentes e depois coloca o dedinho no queixo e vira os olhos para cima com expressão de dúvida para fazer a escolha, pesando na balança mental do gosto para decidir qual dos dois deu mais prazer ao seu paladar, mais paladar ao seu prazer, em qual dos dois seria preferível morrer afogado. “Hmmmm. Morro com o de pêssego!” Parece absurdo, mas uma recente pesquisa revelou que é imenso o número de pessoas que acha que um belo dia você precisa parar para escolher, daquela mesma maneira do supermercado, do que você gosta sexualmente; e não somente você, mas todos nós, como se a sexualidade fosse friamente determinada numa espécie de prova mental de múltipla escolha:
( a ) mulheres;
( b ) homens;
( c ) animais;
( d ) crianças;
( e ) todas as respostas acima.
É uma ideia estreitamente relacionada a uma outra, que vem da infância, aliás que vem dos adultos, quando forçam a criança a comer algo que não a agrada nenhum pouco visualmente e que, ao contrário, a causa nojo e repulsa, dizendo a ela que não é possível alegar que não se gosta de algo que ainda nem se provou.
– Ah é?! – gritou o nosso protagonista desconhecido para o seu pai. – Então vamos lá, papai: você por um acaso gosta de dar o cu? – O pai, machão que era, ficou puto da vida com a pergunta e respondeu quase sem hesitar:
– Claro que não, meu chapa!
– Mas você já deu pra saber? – ralou-lhe o cu o filho; quer dizer, encurralou-lhe o filho.
Há muita gente que pensa essas coisas; mais do que se pensa. Onde já se viu alguém parar para escolher do que gosta sexualmente? Disse o doutor: a sexualidade não é algo que se escolhe – não existe opção sexual – e mesmo se assim fosse, meu filho, esta escolha seria feita em movimento, e nunca com o corpo ou o pensamento parados. Então nosso protagonista desconhecido, cobaia dos experimentos do Diabo, enche o carrinho de iogurte de pêssego e vai para casa feliz & seguro & tranqüilo & satisfeito quanto a sua escolha sexual, aliás pare ele iogurte tem muito a ver com sexo. Aliás, tudo nesse mundo ou em qualquer outro mundo teria a ver, a ouvir, a sentir & a cheirar com sexo. Desenvolvendo um pouco mais a analogia supermercado-sexualidade é como se um homossexual recém-decidido, recém-saído do armário, saísse de manhã da casa (cama) de alguém do mesmo sexo e encontrasse na porta no lugar da guirlanda de Natal com a cara do Papai Noel um cartaz dizendo: “Agradecemos a preferência. Volte sempre!”. Então como lidavam da mesma maneira com aquela questão tão importante para a vida de um adolescente do sexo masculino aquela dupla de amigos ávidos por segurança sexual fartos da inevitável dúvida, resolveram (...) transar entre si (!!!) para que tudo se esclarecesse de uma vez por todas. É preciso provar; é preciso provar um homem para provar (aos outros e a si mesmo) que se é homem, com 100% de certeza. Para as mulheres, é a mesma coisa. A não ser que se desista da certeza.
– Mas por que vocês dizem que a dúvida é inevitável? – alguém perguntou para os dois adolescentes protagonistas.
É uma longa história, mas pode-se responder: (...) o mais velho desses dois amigos se chamava K. (o mais novo se chamava Y.) e o pobre K., no passado, já sofrera de um problema parecido, porém em outro âmbito da vida: a linguagem. Como qualquer outro ser humano um belo dia K. nasceu. Para falar a verdade, não era um belo dia: chovia muito, o céu estava repleto de nuvens negras e havia muitos ratos nas ruas (...) e como toda criança recém-nascida K. ainda não sabia falar. As pessoas ao redor, aqueles babões (pareciam babar mais do que ele) já sabiam falar; já tinham nascido há algum tempo e falavam muito, talvez até demais. K. ouvia, ouvia, só ouvia e aos poucos começava a compreender o que as palavras queriam dizer (ou o que as pessoas queriam dizer com as palavras?) associando-as aos objetos do mundo. Dessa maneira as palavras foram cada vez mais se aproximando dos objetos os quais primeiramente elas denominavam para em seguida se tornarem os próprios objetos, ao mesmo tempo em que os objetos se tornavam as palavras que os denominavam (e que em seguida os dominavam). Palavras-objeto, objetos-palavra, nenhuma diferença, até atingirem um ponto de indistinção. As pessoas ao redor aparentemente viviam falando e mais tarde K. concluiu que na realidade era isso mesmo: elas falavam a vida e viviam a fala, nada muito além disso, sem perceberem a realidade das palavras; K., percebendo a realidade das palavras, tentaria ir além disso. Mas como naquela época ele mesmo ainda não falava, apenas chorava, os outros acabavam falando, inclusive, por ele. Enfiavam palavras à força na sua boca, ainda muito desdentada e despreparada para sequer cogitar se defender ou cuspir aquelas sentenças nojentas para fora de si. Algumas pessoas, principalmente a sua mãe, falavam muito; demais, muito demais, pelos cotovelos, pelo cu, pelos poros, e não resistiam quando viam uma boquinha calada pronta para ser receptáculo passivo do seu vocabulário impositivo. Às vezes, por exemplo, acontecia dele chorar escandalosamente querendo comida, o estômago latejando de dor de tão vazio que estava, e sua mãe, ao chegar ao berço para ver o que estava acontecendo, não hesitava antes de afirmar com convicção: “Oh, olha que lindinho o meu filhinho! Tá com soninho!”. Mas ele não estava com soninho porra nenhuma. Ele estava com fominha e ficava puto da vida com o erro daquelas pessoas da sua família, tão estúpidas. Erro que acabava virando verdade absoluta da situação, já que ele ainda não era capaz de falar para expor e fazer valer a sua verdadeira vontade. Ele pensava, à sua maneira: “Nã to sonin porra niuma. Quero comida, ô porra! Seus filho de puta nojenta!”. Mas de que adiantava pensar? O pensamento só era ouvido por ele... & por conta disso, o que sua mãe fazia em seguida não era dar comida a ele; (...) ela o pegava no colo e cantarolava uma infinidade de canções de ninar, uma mais enfadonha do que a outra, pois não eram canções feitas de trigo, quentinhas, recém-saídas do forno diretamente para a sua boca – e o ouvido não tinha qualquer ligação com o estômago; ele chegou a tentar, mas infelizmente não era possível comer som; e como não adiantava de nada ouvir sua mãe cantar (não mataria nunca a sua fome) ele chorava ainda mais alto, escancarava ainda mais o seu berreiro, esperneava violentamente fazia um grande escândalo. Buáááááááááááá! Buááááááááááááááá! Em vão; sua mãe, então, iniciava uma história, outra tentativa de fazer o menino dormir. A história mais freqüente nessas situações era a dos três porquinhos, porque todos acreditavam ser esta a mais eficaz para acalmar o menino chorão. E não era de todo mentira: porém isso só acontecia porque K. entretinha o seu estômago ao imaginar os três pequenos suínos assados numa enorme travessa, cada um com uma maçã enfiada na boca, batatas gordas cozidas ao redor do corpo, a carne macia e corada, a pele tostada... Mentalmente K. tentava fazer um pacto com o Lobo Mau: torceria por ele, contanto que depois ele concordasse em compartilhar o bacon. Em momentos de fome como estes a mente de K. literalmente se deslocava para o estômago e era lá, no estômago, que seus pensamentos passavam a ressoar e a ecoar, e ele sentia sua cabeça ficar tão vazia e descontrolada quanto sua barriga. E nem todas as imagens apetitosas que povoavam sua mente conseguiam enganar sua fome, tão esperta, que roncava raivosa feito um monstro mitológico insaciável no interior do seu estômago. Entretanto – prestem atenção! – de tanto que sua mãe o balançava K. acabava por ficar tonto, muito tonto, e não demorava a dormir... totalmente grogue... chacoalhado, puft! & não se esqueçam vocês de que inicialmente ele tinha fome (e não sono) mas mesmo assim dormiu (e não comeu) – confirmando a falsa suspeita da mãe; fez valer a vontade da mãe, apenas porque não falava. Só quem tem boca, só quem tem fala pode reinar nesse mundo; nem todos os escravos são mudos, mas todos os mudos são escravos; e os escravos que falam, quando se rebelam, têm imediatamente suas línguas decepadas. Como dizia o ditado: quem tem boca vai a Roma. Como dizia K.: e quem não tem, vai pra puta que o pariu. A verdade, pensava K., é um privilégio daqueles que verbalizam. Mal sabia ele que muitos estudiosos andavam dizendo o contrário. Porém, como era de se esperar, essa condição de K. não durou para sempre. Assim como todos nós seres humanos um belo dia K. começou a falar, e dessa vez foi mesmo um belo dia, com um enorme e brilhante sol sorrindo e raiando amarelo no límpido céu azul de nuvens brancas feito algodão. Mas como sua experiência pré-linguagem não tinha sido das melhores, na verdade muito traumática, a linguagem começou a ser para ele motivo de extrema tensão e ansiedade, precisamente por ser o maior meio de libertá-lo de suas inseguranças e medos mais primários & também da repressão que antes sofria: pois ele temia perder, da noite para o dia, por qualquer castigo divino inexplicável, a capacidade de falar. A linguagem passou a estar para ele sempre por um fio, na corda bamba da dúvida; acabava sendo demais para ele – no mau sentido – ele que com as muitas palavras de sua língua se sentia mais ou menos como um malabarista que precisava jogar com 500.000 laranjas & que se perdesse o controle e as deixasse cair ficaria soterrado & à mercê dos tomates dos outros. Ao mesmo tempo, ele sentia que ninguém lidava melhor do que ele com as palavras em sua essência, ou melhor, em sua falta de essência; ele compreendia que era inseguro, mas também percebia que as próprias palavras eram inseguras por natureza, posto que sem qualquer natureza, para ele sempre deslizantes com seus múltiplos sentidos nunca fixos, sempre fixados; e dessa forma ele e a linguagem eram como unha e carne, ambos tremendo, paradoxalmente harmônicos através do próprio caos que compartilhavam. Isso obviamente não garantia a ele nenhuma segurança, mas apenas uma insegurança controlada, posto que inevitável (cá estamos); K. pensava que qualquer segurança nessa vida só era alcançada através de grandes ilusões, ilusões nas quais sua mente delirante sempre se recusara a acreditar. É tudo mentira. Só os loucos sabem a verdade, a verdade da mentira; para K., ser são é a mesma coisa que ser alienado, passar por um forçado processo de auto-alienação que leva à paz da saúde mental; & não se trata de uma apologia à loucura da parte de K., pois ele sabe que essa verdade de que sabem os loucos causa muita dor, ou pelo menos alguma dor. O problema é que K. já havia visto, mais cedo, como uma topada forte com um dedo no meio-fio podia fazer uma unha se descolar de uma carne e cair; unha podre, carne vulnerável. Se ele perdesse a linguagem, se a deixasse cair, estaria novamente exposto à palavra dos outros, seria novamente o boneco de sua mãe ventríloqua. Perder a linguagem era equivalente a perder a si mesmo. E mesmo que compreendesse bem a origem desse temor, K. não conseguia de modo algum eliminá-lo; ele recordava que quando criança (na época em que não podia falar e por isso dormia com fome e comia com sono etc.) não tinha e não tinha como ter certeza de que um dia viria a falar. O advento da linguagem numa criança pode parecer algo de muito natural e óbvio aos olhos de um adulto, mas para a própria criança não o é nem um pouco. A criança, mergulhada na experiência, sente iniciar uma angústia pesada, ensaia os primeiros gu-gus da-das, sons a-significantes, mas daí ao advento da linguagem o que se dá é uma verdadeira batalha, uma longa guerra permeada por intensas inseguranças. Para K., pelo menos, assim foi. Quando criança, ele não sabe se conseguiria, pois ele ainda não sabia de nada. Para saber racionalmente qualquer coisa, já seria preciso falar, ou ao menos ter o pensamento estruturado com a linguagem verbal. É um exagero dizer que os homens pensam somente com a cabeça de baixo; pois nos intervalos (e nas preliminares) eles pensam também com os dedos, e com a língua. Por ter esse pensamento (de que a linguagem não é um evento natural, mas um advento cultural) é que K. mais tarde tanto temia perder a capacidade de falar. Sabia, através de rumores e filmes, que algumas pessoas perdiam a voz quando passavam por experiências muito traumáticas, e isso fez com que ele iniciasse sobre si mesmo um intenso autocontrole, evitando se expor a situações de forte carga emocional. Vez ou outra ele conseguia relaxar um pouco, ao notar que foi também uma experiência traumática o que primeiramente o levou a falar, a desenvolver em si mesmo a linguagem. Só que agora, sentia extrema urgência em dominar totalmente a linguagem, ter certeza absoluta da linguagem, quando ele mesmo percebia que tudo na linguagem é dúvida. Falar não é nada de essencial, pensava K.; ao contrário, algo que é aprendido e que por isso mesmo pode ser perdido, esquecido, tomado à força. Algo de histórico, e logo fundamentalmente incerto. É uma das tragédias da humanidade (nossa como está chata essa parte) não se pode ter certeza de absolutamente nada, nem do nada nós podemos estar efetivamente certos. Para completar K. sentia que somente falando (no gerúndio) era possível sobreviver; atacar e se defender. Se você não fala, falar, falando, em poucos segundos você é atropelado pela língua dos outros que falam, você é violentado estuprado violentamente pelas más línguas, você recebe verdadeiras linguadas. Se você não pode dizer tá bom ou tá ruim você vai apenas gemer & os gemidos são vazios de sentido; nós que falamos e fodemos encaixamos nos gemidos dos outros o sentido que quisermos, o sentido que acharmos melhor. “Quem fala fode, quem não fala é fodido” era esse o preceito básico do pensamento de K., se você não fala os outros falam para ou por você ignorando a sua vontade enfiando palavras na sua boca à força como um espírito ruim que entra no seu corpo possui seu corpo e fala com a sua boca coisas com as quais você não concorda coisas que você não ousaria deixar escapar pela barreira dos dentes & em pouco tempo você fica conhecido pelo que o espírito é & pelo que o espírito pensa & não pelo que você realmente é e pensa, pois para os outros este realmente não existe, ele fica limitado a um lugar frágil e vulnerável do seu cérebro passivo sem palavras espontâneas para através das quais ser mediado. Sem a capacidade de falar, sem as palavras, você perde o pouco de essência que ainda tinha através de algumas ilusões, o pouco de identidade que ainda tinha através de algumas ilusões restantes sendo apenas o porta-voz do primeiro demônio que resolver se aproveitar e se apossar do seu corpo vago, um demônio que tem por essência tudo o que é oposto a você. Interferências. Índios, bruxaria. Era-uma-vez. Tédio, pular páginas. Foda-se. Outra dúvida um tanto trágica não largou o pensamento de K. quando ele fez aquele glorioso e ao mesmo tempo doloroso movimento do silêncio à fala: e quando eu não estou falando, n, d, o, no gerúndio, o que me acontece? O que poderá me acontecer? Não será perigoso? Acaso ninguém se aproveitará do meu silêncio para possuir minha língua, enfiar palavras de carne na minha boca por coerção? Formular por eles mesmos os meus pensamentos? Modular de acordo com as suas vontades a minha identidade? Pois se alguém me vê em silêncio como este alguém poderá saber se eu falo ou não, se eu tenho ou não a capacidade de falar e, conseqüentemente, de atacar e me defender? K. sabia que falar de boca cheia era má educação. Enquanto estava comendo, portanto, não podia falar & isso era motivo para tensão de 150 milhões de Volts na cabeça do coitado, eletrizando todo o seu corpo tenso, energia quase fatal correndo através de seus fios verdes e quase o matando. Ser mudo, para ele, seria o equivalente à morte; na verdade, ser mudo seria muito pior do que a morte, pois seria o equivalente exato a morrer estando vivo. Morto-vivo, vivo-morto. Como eu mesmo posso ter a segurança de que falo quando estou em silêncio; quando não estou falando, n, d, o? Como eu mesmo posso ter a segurança de que gosto de mulheres quando estou inativo, sem beijar ou comer uma mulher, sem olhar nem desejar foder uma mulher? Sem estar gostando, n, d, o, de uma mulher, no exato momento? K. sentia muito medo de não ser, de deixar de ser tudo o que era; mas ao mesmo tempo, seu medo era também o medo de Ser... Pavor de Ser. Pavor de acabar Sendo jogador de videogame, por exemplo, enquanto estava jogando, n, d, o, videogame, e perder todas as outras coisas que o constituíam enquanto K., enquanto ele mesmo. Medo de se concentrar tanto numa coisa e acabar Sendo esta coisa, apenas, nunca mais conseguindo sair desta coisa, fechando-se aí... O Ser e a catatonia, lado a lado; o Ser e as trevas; o Ser e o Não-Ser – delirou K., sem ter estudado qualquer filosofia – são praticamente a mesma coisa. O Ser é a morte. Daí, também, sua grande dúvida sexual: como ser homem, sem dúvida alguma, sem Ser homem o tempo inteiro – sem deixar passar um só segundo sem ser homem – sem praticar 100% do tempo o gosto por mulheres? Deixar esse gosto dormir, em algum momento. Ser homem, absolutamente homem, isto é, gostar de mulher, ser = gostar, necessariamente o impediria de ser qualquer outra coisa. Pois se ele fosse, ao mesmo tempo, qualquer outra coisa além de homem, além do sujeito de um gosto sexual por mulheres, sua masculinidade não seria absoluta, seria frequentemente posta em dúvida, longe da tão desejada porta da certeza. Por isso, em sua realidade psíquica, K. só conseguia ser homem, por exemplo, sendo outra coisa que não homem; entrecortado por alguma outra coisa que ele também era – como por exemplo jogador de videogame ou leitor de romances policiais – ou então pela ameaça de vir a ser algo que ele não era e não gostaria de ser; desse modo K. nunca conseguia andar andando, comer comendo, jogar futebol jogando futebol, ser homem sendo homem; só conseguia comer atravessado pela ameaça de deixar de falar; só conseguia jogar futebol atravessado pela ameaça de deixar de ser homem; concentrava-se arduamente para não perder a masculinidade e, assim, a bola rolava com ele distraído, investindo energias em outro lugar; ele só conseguia ser homem, imediatamente, entrecortado pela ameaça de não ser homem, investindo energias em outro lugar; porém, contraditoriamente, essa ameaça representava tanto o medo de não ser ou deixar de ser homem, quanto uma garantia de não Ser homem (apenas homem, nada mais) e acabar impedido de ser qualquer outra coisa que ele era e gostava de ser... K. começaria a ser torturado por todas as palavras existentes no dicionário pois eram todas elas vazias e flutuantes nenhuma delas era natural & não sendo a dor forte o suficiente as palavras começariam a se unir para formarem um exército lingüístico contra K. começando a gerar novas palavras vivas com texturas cores cheiros e formas e principalmente deformas & palavras que se fundem e o fodem. K. perderia sua identidade inexistente, sua ilusão de identidade, que ficaria oscilando velozmente entre magra & gorda, & magrorda, alta & baixa, & altaixa, estreita & longa, & estreitonga, grande & pequena, & grandena, & gangrena, bonita & feia, & boniteia, K. seria tudo ao mesmo tempo & ao mesmo tempo não Seria nada. Muito bom. Se fosse medroso(a), K. chegaria à covarde conclusão de que seria bem melhor se alienar na linguagem (na naturalização da linguagem) de uma vez por todas e não mais ficar nessa corda bamba como ficava o nosso protagonista desconhecido, mas K. era macho, muito macho, e macho não pode ser medroso, macho enfrenta tudo – nosso querido amigo K., amigo de Y., o famoso casal, quer dizer dupla, quer dizer par, de seres humanos do sexo masculino. K. no fundo sabe que seria muito melhor deixar-se tombar definitivamente na limitação da individuação, esquecer o que não é, deixar as coisas boiando na insegurança, sem buscar a segurança total, que é onde mora a saúde mental & aquele tipo fundamental de ignorância... Porém K. acha que é preciso acreditar que as coisas são fixas, 100% fixas – com certeza absoluta. Sim, eu sou isso. Sim, eu gosto disso. Sim, eu sei disso. Não há dúvidas quanto a isso. É preciso acreditar que o fato (fato?) d‘eu ser assim, dessa forma que eu sou, não significa que eu quero ser assim e me esforço para ser assim, mais ou menos como um ator conquista e constrói seus personagens... Ao contrário, para ser são, é preciso acreditar que o fato (fato!) d‘eu ser assim, significa que os deuses me esculpiram dessa forma, que tudo sempre esteve adormecido (esperando para ser desperto) & presente desde sempre no núcleo da minha personalidade, esta “coisa” ilusória chamada essência, alma, etc. Acreditar que eu Sou assim & sempre fui, & sempre Sou, tudo isso faz parte da minha essência, acreditar que existe uma essência: eu não teria como ser de outra forma. K. acredita que as mentes, quando querem paz e segurança, devem estar sempre abertas para o seu próprio fechamento. K., infelizmente, não percebe as muitas dimensões da mente. Acredita que a mente se abre completamente, ou que se fecha completamente. K., dessa forma, não consegue sair do vazio. Não percebe que a mente pode fechar certas janelas, e abrir outras: aliás, que a abertura total de certas janelas depende do fechamento de outras.
Uma mente insegura não é aquela que não tem certeza de nada: é aquela que busca a certeza de tudo. Uma mente segura não é aquela que tem certeza de tudo: é aquela que não busca a certeza de nada.
Voltando ao que não interessa: como tinham a mesma ideia a desrespeito da indefinição da sexualidade, os amigos K. e Y. resolveram transar entre si, provar um ao outro. Pôr um ao outro à prova. Segurar um no outro, para depois ficarem mais seguros de si. Sou homem ou Sou gay. Seu problema, seu medo, não era exatamente o de ser gay; eles seriam gays com felicidade, se ao menos soubessem com certeza que o eram!; seu grande problema era, na verdade, a irredutível indeterminação; pois enquanto sentiam-se homens, uma possibilidade-gay sempre os atormentava, instalando-se coercitivamente entre eles e a mulher. Afinal, gays existiam; e eles também existiam; algo em comum, a existência, eles compartilhavam com os gays; além disso, gays não São gays e pronto; gays são homens que se tornaram gays; homens são homens que se tornaram homens; ou seja gays eram, foram homens – possibilidades-homem, ao menos; ou seja também os homens eram, foram possibilidades-gay; então, sendo assim, o que exatamente neles, em sua suposta essência, os impediria cemporcentomente de serem gays, de se tornarem gays? Impossível saber de antemão; era preciso pôr a mão, para conferir qual seria a reação. Meses antes, K. tinha se masturbado pela primeira vez em sua vida. Tinha ouvido numa roda de amigos sobre aquilo que o homem fazia com seu próprio brinquedo, e resolveu tentar a tal da “punheta” naquela mesma noite, enquanto a água quente chovia da ducha sem parar e escorria ralo a baixo. Inicialmente ele estranhou bastante a situação: a água quente, o boxe enfumaçado, o espelho embaçado, a espuma do sabonete e do xampu, tudo idêntico à preparação de um casal para um banho sexual romântico. “Mas”, vocês se perguntam, “que problema ele via nisso?!” O problema, pensava K., era que ele estava sozinho consigo mesmo, no banheiro — e ele era um homem! A previsão de que em breve se tocaria, de que tocaria seu próprio corpo, o corpo de um homem, o fez estremecer, temendo a possibilidade daquela tal de “punheta” ser um ato homossexual. Como era um ser (?) linguisticamente inseguro por natureza, K. costumava afirmar, muito a sério, que não era um Homo Sapiens Sapiens. “Homo Sapiens Sapiens porra nenhuma! Eu sou um Hetero Sapiens Sapiens!”. Essa própria fala já indica que K. não tinha tanta certeza assim desse fato; ou, antes disso, que queria muito ter certeza linguística, jornalística desse fato, independente do que o seu corpo dizia. Em sua cabeça insegura, talvez ele fosse mesmo um Homo Sapiens Sapiens, que no fundo não aceitava sua própria condição e a negava para si mesmo com auto-ilusões. Ele se testava o tempo inteiro. Pois se para ser qualquer coisa era preciso se construir, como seria possível saber se a relativa autoconsciência de ser homem, em K., não era apenas uma auto-ilusão, que escondia lá no fundo a negra verdade: de que na (negra) verdade ele era um veado, uma bicha louca, enrustida; ansiosa por florescer, por desabrochar e ser enrabada? Enquanto se preparava para a masturbação, K. se perguntava: “Como me sentirei, agora, tocando um homem ao mesmo tempo em que sou tocado por um homem?”. Imaginou-se perguntando a um amigo: “Rogério, você por um acaso, ah, por um acaso você já, ah, hum, bateu punheta (cof)?”. Ao que Rogério furioso responderia: “Como assim, mermão, tá me achando com cara de veado? Só mulher encosta aqui, só fêmea bota a mão aqui, cumpade!” e ao pronunciar as últimas palavras Rogério (contraditoriamente) faria com a mão um gesto agressivo levantando o próprio pinto com saco e tudo, como se o oferecesse ao veado que seu amigo estava mostrando Ser. K. tinha escutado vários amigos dizendo que já tinham feito aquilo e que era muito bom, muito prazeroso, coisa de macho. Bastava pensar numa mulher e começar a ação. Mas ao pensar duas vezes, ou até mesmo três, K. sentia que aquilo poderia ser uma grande armação dos seus amigos, para que depois ele confessasse que o fizera e fosse chamado de mocinha, de boiola, cuzudo, manjador-de-pau, pelo resto de sua vida. Porém, essa suspeita não durou muito tempo, logo amoleceu & K. relaxou, quando percebeu que seus batimentos cardíacos aceleravam de excitação com o clima “quente” do banheiro e resolveu se deixar levar, seguir em frente consigo mesmo & K. pensou numa amiga de sua irmã, uma tremenda gostosa, e tudo parecia pronto. Porém, na hora H de começar a ação, K. se deu conta de que ainda não fazia a menor ideia de como aquilo era executado. O que ele deveria fazer com o próprio sexo?
Era uma vez alguém que tem na mão a faca e o queijo mas nunca cortou nada na vida — assim estava K., no banheiro, com o pau na mão. Então a coisa não parecia para ele tão óbvia quanto pareceria para os punheteiros de longa data. Nosso masturbador de primeira viagem superou a decepção inicial, tomou coragem e resolveu improvisar: já tinha chegado até ali e não queria perder a viagem, a qual já não tivera uma fácil decolagem. A amiga da irmã esperava de quatro impacientemente no chão do boxe, expondo a ele uma vagina convidativa e trêmula enquanto olhava para trás com um sorriso de puta que quer levar, e K. ficava cada vez mais excitado. “Quem dera fosse verdade!” Botou a mão direita no pirú e começou a balançá-lo para cima e para baixo, sem parar, exatamente como se faz quando se acaba de mijar, só que um pouco mais forte. Acreditou ter acertado — porque o pirú de fato endureceu com esses movimentos — e sorriu, se sentindo um pouco mais homem. Mas no fundo (e no fundo) ele sabia que havia algo de errado. Estava bom, mas não tanto quanto tinham dito que era. Longe disso! Então K. desanimou de vez com aquilo tudo e deixou a puta da amiga da irmã de quatro no boxe decepcionada sem ser fodida, pois esperava muito mais da tal “punheta” e àquela altura ainda não sabia o quão equivocado estava no modo de executar o trabalho. Estava receoso de conferir a respeito da técnica correta com um amigo mais experiente, pois acabaria sendo sacaneado. Mas, de qualquer forma, o ambiente sexual por si só já o havia excitado bastante. Valera a pena. Era nesse tipo de ambiente que ele queria viver, com o sangue quente, o coração acelerado, as emoções florescendo e murchando ao longo de todo o seu corpo como flores sexuais sangrando num imenso campo hormonal. Uma súbita saída da enfadonha e rígida, frígida realidade da vida. O mesmo acontecia no quarto de Y., tempo atual & já estavam ambos, tanto K. quanto Y., sem roupa, deitados na cama mas nenhum dos dois tinha a menor ideia de como dois homens transavam entre si. Como um homem transava com uma mulher — além de ser tão óbvio quanto plugar um aparelho na tomada — eles tinham confirmado alugando um vídeo pornô heterossexual. Como não queriam ser tachados de bichas na locadora, não arriscaram outro tipo de filme. Mas ali, no quarto, não queriam perder a viagem e tomaram coragem, resolveram improvisar. Concentraram-se ambos para imaginar como deveria ser, como resolver a questão, a aparente incompatibilidade entre os corpos do sexo masculino. Infelizmente nenhum dos dois tinha uma vagina e isso constituía um grave problema técnico, um obstáculo a ser superado. Do jeito que eram seus corpos, eles pensaram, seria como tentar ligar os pinos da tomada da TV nos pinos da tomada do DVD, sem envolver os buraquinhos da parede na história, os fornecedores da energia. Alguém deveria abdicar, então, do papel de macho! – foi a brilhante conclusão a que chegaram, e fornecer a energia ao outro com o seu buraquinho. Resolveram, por fim, tirar no pau, que dizer no par, ou ímpar — quem ganhasse seria o homem, quem perdesse a mulher. K. pediu par, Y. pediu impar – dó, lá, si, já! A soma dos números deu par: K. seria o ativo, Y. o passivo.
Deus sabia que eles não eram de fato homossexuais. Não realmente. Porém, o problema era que eles não acreditavam em Deus, e que apenas por saberem que estavam prestes a fazer sexo — essa coisa tão excitante que seria o norte de toda a existência humana — ambos ficaram excitados e tiveram lentas, porém efetivas duras rudes grosseiras petrificadas ereções: – sexo é sempre bom, não? Absolutamente bom? A palavra sexo, qualquer ambiente sexual, é excitante por si só, independente do que acontece dentro deste? A mente humana é uma bússola — & o sexo a transa a foda a trepada a orgia o bacanal a suruba a sacanagem a putaria, é o seu norte? O ponteiro imantado da mente humana aponta incessantemente nessa direção – onde duas pessoas ou mais fazem movimentos repetidos e cadenciados umas nas outras, umas encaixadas nas outras, como animais selvagens, o ser humano almeja esse momento em que vai esquecer toda a cultura e a civilização, queimar os livros, tirar a roupa e se descomportar, mesmo que temporariamente, dentro de um quarto escuro e bem trancado, como animais selvagens fodendo livremente e sem pensar, sem pensar, abolir todo o pensamento, demolir as instituições, os shopping centers, as universidades, e ficar fodendo coletivamente desesperadamente para sempre nas ruínas – assim como nossas vidas caminham, segundo após segundo, na direção da morte? O norte é a morte? Sexo e morte estão intimamente conectados?
Passados alguns minutos, ambos estavam com uma ereção escandalosa, veias estufadas quase explodindo. K., brilhante como era, notou que todo pênis, apesar de ser uma forma fálica, tinha uma abertura, uma boquinha, um furo, por onde saía o xixi e a porra, e por essa abertura da uretra, penetrou, com seu pau, o pau de Y., que foi aos poucos se alargando, abrindo-se, dilatando-se, misteriosamente, milagrosamente, como um tubo vaginal. Logo o pau de K. estaria alargando toda a glande de Y., e após mais algumas pressionadas estaria quase que inteiramente dentro do pau de Y., o que somente não aconteceu porque o pau de K. era alguns centímetros maior do que o pau de Y. No fim, acharam tudo muito estranho e doloroso — principalmente Y., o receptor — mas sabiam que era preciso passar por provas e provações para alcançar a gloriosa certeza. Minutos antes, Y. sentia um medo terrível de gostar daquilo, porque desse modo estaria descobrindo que era veado, logo ele, que a vida inteira tinha achado, para a sua grande sorte e prazer, que era heterossexual, já que as mulheres sempre o excitaram tanto, as mulheres, aquelas coisas apetitosas e deliciosas que dava vontade de foder até morrer, oh Deus. Mas Y. sabia, no fundo, que havia a possibilidade de gostar da experiência homossexual — e o que se sabe no fundo é muito perigoso, principalmente para um homem. Pois nossa mente às vezes nos engana, nos convence de coisas que não existem. De acordo com as noções de Y., podemos viver a vida inteira sendo (ou achando que somos) heterossexuais, fodendo milhares de mulheres e amando cada uma de suas bocetas, sem nenhuma atração por homens e nunca se envolvendo sexualmente com um – o mesmo valendo para as mulheres, invertendo os gêneros desta sentença – e no fim descobrirmos que tudo não passou de uma mentira, apenas uma ilusão criada por nossa mente para esconder de nós mesmos a cruel, negra verdade; na cruel, negra verdade — que, de acordo com Y., Deus nos revelaria, nos iluminando com a sua sagrada palavra esclarecedora — o tempo inteiro nós fomos homossexuais enrustidos & justamente por ter consciência dessa possibilidade foi que Y. mergulhou naquela aventura com K., em favor da verdade, para poder — se Deus quisesse e fosse bondoso — perceber que não gostava de homens e não ser mais em momento algum ameaçado por aquela ideia imbecil enquanto se deliciava com as mulheres que o esperavam de pernas abertas num futuro glorioso. Ambos, tanto K. quanto Y., acharam tudo muito doloroso, mas diziam as más línguas, por aí, que as mulheres também sentiam muita dor quando eram penetradas pela primeira vez e que depois se acostumavam. Inclusive, também costumavam sangrar, assim como sangrou o órgão genital de Y., quando feito de furo. Afinal, não haveria de ser diferente com os homens. No fim, não satisfeitos, os amigos K. e Y. decidiram tentar mais uma vez, para uma constatação final. E dessa vez trocaram os papéis: (...) o pau de Y., ao entrar furiosamente no de K., rasgou este último em dois, como um bife tenso cortado, arrebentado ao meio, revelando um tecido mais fino e rosado, abrindo-se como um filé vulnerável, hemorrágico, como se tivesse sido transformado numa vagina menstruada, cada metade indo sangrenta para um lado como dois lábios volumosos em forma de tentáculo; como uma banana que se descasca espontaneamente e dá lugar a nada; como uma banana que se descasca juntamente com a sua carne. K. sentiu uma dor pavorosa e deixou no ar um gemido lancinante, Y. continuou fodendo, armando a face com um sorriso de prazer incondicional, nunca tinha se excitado tanto quanto naquele momento. Continuou fodendo com violência o pau dilacerado de K., sentiu como se estivesse transando com uma mulher (...) aqueles lábios abertos, trêmulos, aqueles pedaços de carne rosa, ensopados de secreções corporais. Era o espectro do Paraíso, e a pressa em torná-lo real. O Paraíso não está no céu; está no meio das pernas de uma bela mulher quente e aconchegante, numa vagina suculenta e rosa. Quero morrer, oh Deus.
