quarta-feira, 23 de maio de 2007

Pesadelo #4


As coisas começaram a se relacionar de uma maneira cada vez mais estável e próxima e fixa com as palavras – por mais que esta relação tivesse um aspecto estranho e, de alguma forma, falso – a ponto d’eu ter achado em boa parte da minha vida que as quinas, que toda quina – fosse esta de rodapé, de mesa, de cadeira ou de corrimão, qualquer quina – era feita para se bater a cabeça; justamente para se bater a cabeça. Como se esta fosse a função da coisa – feita para isso – seu predicado imutável, inalterável e primário, e pronto. O acidente tomando o lugar da essência.

O curioso é que essa história de quinas tem muito a ver com o dia em que ganhei meu predicado primário e inalterável de artista. Eu – artista. Tinha seis anos de idade e brincava com o meu Forte Apache num quarto quase vazio onde havia somente uma velha poltrona de um único assento isolada num canto e um quadro pendurado na parede – nós havíamos nos mudado há poucos dias para aquele apartamento. A janela estava aberta e deixou entrar uma súbita ventania trazida por um ciclone que se aproximava e que derrubou o quadro com uma de suas quinas diretamente na minha cabeça frágil de criança, rompendo e rasgando a fina pele da minha moleira. Levei a mãozinha até o ponto da dor e quando avistei a ponta dos meus dedos decorada com sangue vermelho, desesperei-me e corri até a sala chorando e gritando que me levassem imediatamente ao hospital. Naquela época qualquer sangramento na cabeça, por menor que fosse, representava para mim sério risco de vida. Ou melhor – sério risco de morte. A cabeça sempre foi muito importante para mim, principalmente na infância, quando eu sentia que era dentro da cabeça que toda a existência se dava. Agora mesmo, ao escrever estas memórias, senti-me tonto e ameaçado por um pensamento indesejado: tudo o que é meu não sou eu, certo?; tudo o que é meu é extrínseco ao meu eu; sendo assim, se eu falo da minha cabeça, minha cabeça não sou eu; mas tenho a forte impressão de que o eu fica na cabeça (ou mente), e imagino que vocês também a tenham; aliás, como vocês viram algumas frases atrás, eu mesmo posso falar de mim; mais do que isso, eu posso falar do meu eu; e se falo do meu eu, isso sugere que meu eu é extrínseco a mim mesmo; grandes paradoxos; como é possível saber, então, o que exatamente é esse eu ou se ele realmente existe? Caralho – deixa eu afastar esse pensamento! Às vezes a importância da cabeça para mim se acentuava tanto que minha cabeça acabava sugando o resto do meu corpo para dentro dela, e eu – em vez de andar com minhas pernas – ficava rolando de um lado a outro, eu = minha cabeça. Deram-me um copo d’água com açúcar para que eu me acalmasse e tentaram me convencer de que tinha sido apenas um pequeno machucado inofensivo, que a pele da moleira logo se regeneraria e meu crânio voltaria a se fechar, o que eu não engoli com facilidade, nem com a ajuda do líquido que me deram. Continuei chorando e tremendo, muito preocupado, acreditando que aquela poça de sangue na qual eu mergulhava a ponta dos meus dedos poderia representar minha futura (breve) morte. Para que eu me acalmasse de vez, mas chateados por terem que parar de assistir a novela, levaram-me ao apartamento de um vizinho que era médico para que ele me aliviasse e me deixasse mais seguro de que não eu corria o menor risco de vida. Ou melhor – o menor (e muito menos o maior) risco de morte. Ou melhor, não – ou pior! Ele me examinou minuciosamente, com muita atenção e curiosidade, um sorrisinho egoísta no rosto como um cientista que descobre uma fórmula nova, e após exigir toda a sorte de exames (que bom que exigiu sorte, porque se exigisse todo um azar de exames me deixaria ainda mais nervoso) cujos resultados diagnosticaram quatro letrinhas maravilhosas: A, R, T, E.

MÉDICO: Seu filho a partir de agora, madame, é irremediavelmente um artista. O quadro que caíra na minha cabeça era um original de Paul Klee. A quina do quadro, ao rasgar a finíssima pele da minha moleira, abriu uma pequena fresta no meu crânio, e através desta brecha entraram duas gotas de tinta vermelha que pingaram do quadro, levemente derretido pelo calor de 45 graus que fazia aquela tarde, tinta que havia sido misturada pelo próprio Klee em seu ateliê e que consequentemente continha o gene, o germe, o verme do artista, que se infiltrou e tomou meu cérebro por inteiro. Desde muito cedo eu já possuía sérias propensões, sérias tendências artísticas, caralho, mas aquele acidente fez de mim um artista por definitivo, sem qualquer sombra de dúvida possível, como se artista, a partir dali, fosse meu DNA, meu sobrenome, um nome que não se separa do meu de maneira alguma, que não se separa do meu nome, do meu eu, do meu Ser: um nome sobre o meu. O predicado imutável de minha pessoa. Então, a partir daquele dia, dizer meu nome implicava dizer artista – estava subentendido – dirigir-se a mim implicava dirigir-se a um artista. Antes de homem, eu era artista. Antes de ser humano, eu era artista. Aliás, eu não era artista; eu sou artista, no presente. No presente, no passado e no futuro, mas sempre no presente. Eu era, eu sou, eu serei, sem dúvida, artista. Artista é dos meus predicados aquele que se antecipa a todos e não dá lugar a nenhum dos outros predicados que eu possivelmente possa ter. Estável. Imutável. Inabalável.

Que sorte, a minha. De outro modo, imaginem, eu só seria de fato artista enquanto estivesse executando o meu trabalho de criação, no ateliê, no gerúndio, apenas nestes momento de ação eu poderia dizer a mim mesmo e aos outros que eu era (sou) artista. No dia-a-dia, no cotidiano, não fosse o acidente, tudo me seria extremamente doloroso, pois qualquer outra coisa que eu fizesse que não fosse arte incitaria o meu cérebro a me gerar dúvidas quanto a ser ou não ser artista, quanto a ter ou não ter dons artísticos. Nesse aspecto, aquele mal me veio para bem. O acidente veio para me fornecer tranqüilidade eterna. Se não fosse assim eu precisaria renunciar a todas as outras coisas da vida, da minha vida, em função da segurança em relação ao predicado de artista. Não me envolveria com mulheres, pois o fazendo estaria exercendo o papel de homem, estaria sendo homem, estaria preenchendo e ocupando a lacuna do predicado – que fica logo ao lado da lacuna do sujeito (eu, eu sou, eu tenho) – com a palavra homem. Isso poderia ser muito prejudicial ao meu principal papel no mundo, que era (e ainda é, e ainda será) ser artista. Aliás, papel não – chumbo; ferro; metal. Se eu relaxasse demais sendo homem, se eu me deixasse levar por inteiro pelo prazer de ser homem, isto é transar com mulheres, ser = transar, seria inevitável deixar de lado por um momento o predicado de artista para me dedicar ao prazer sexual, e talvez, nesse breve momento de relaxamento, distração e perda do domínio, meu lado artístico se desfaria, se desintegraria, e depois – após a relação sexual – quando eu fosse recuperar meu lado artístico, não conseguiria mais acessá-lo; só restaria para mim o predicado de homem, impedido de ser ao mesmo tempo artista. Você não deveria ter se deixado levar! – eu diria para mim mesmo, chorando. Seria preciso que eu ficasse o tempo inteiro atento para ver se ainda possuía aquela preciosa faceta da minha essência e personalidade, nunca podendo estar à vontade com as outras delícias da existência. Ou então, teria que foder pintando; mesmo que fosse pintando mentalmente, distante do momento presente, sem a dedicação e concentração necessárias para satisfazer a mulher ou satisfazer a mim mesmo. Todo o resto das coisas que existiam (e ainda existem) para ser feitas, tudo o que não é arte, afastar-me-ia, potencialmente, do centro, do âmago do meu ser. Do âmago artístico do meu ser artístico. Enquanto eu estivesse sendo pai, por exemplo, onde ficaria o artista? Enquanto eu estivesse sendo jogador de xadrez, por exemplo, em que canto descansaria o artista? É esse o problema: nenhum descanso é seguro. Quem nunca prolongou o tempo de vigília, quem nunca forçou a insônia, com medo de dormir e nunca mais acordar? Não há nenhuma garantia. Bom, felizmente para mim, eu posso ser homem e artista ao mesmo tempo, a hora que eu quiser, pois meu cérebro estava (está) irremediavelmente contaminado com o néctar vermelho de Paul Klee. Posso relaxar sendo homem, sendo jogador de futebol, sendo qualquer coisa, que no fim é certo de que ainda serei um artista. A hora que eu quiser. Agora que eu quiser. Graças às quinas!

E quanto a vocês, outros artistas do mundo, fadados à insegurança – como fazem para suportá-la? Vocês que, de uma hora para outra, da noite para o dia, podem vir a descobrir a verdade, que pode acabar revelando que vocês não são verdadeiramente artistas... Que tudo não passou de uma mentira, de uma auto-ilusão... Que vocês tiveram um relâmpago de criatividade, talvez, numa certa época da vida, mas agora tudo o que resta é seguir uma outra carreira e assumir uma impossibilidade... Pois a vida é assim, cheia de limitações, impossibilidades e desejos não realizados, não realizáveis e, por fim, e pôr fim, e... enfim. Pois a vida é cheia de ameaças; cheia de coisas que amamos mas que infelizmente não são feitas para nós, coisas que amamos mas tudo o que podemos fazer é admirá-las à distância, de longe, na posse de outros. Pois antes daquele acidente, quando eu tinha quatro ou cinco anos de idade, todo poema que eu escrevia, cada palavra que eu colocava no papel, além de ser a expressão de um sentimento, além de ser a execução de uma idéia, era um teste para mim mesmo, uma constatação, uma tentativa de alcançar uma resposta definitiva para a seguinte pergunta: Sou ou não sou poeta? Ao final do poema, na última sílaba da última estrofe que eu deitava no papel, eu desejava que a resposta, acompanhada de um brilho intenso, fosse positiva. Sim, sorria! Você é mesmo poeta! Hoje, graças às quinas, não sofro mais destas inseguranças.O curioso é que essa história de quinas tem muito a ver com o dia em que ganhei meu predicado primário e inalterável de artista. Eu artista. Tinha seis anos de idade e brincava com o meu Forte Apache num quarto quase vazio onde havia somente uma velha poltrona de um único assento isolada num canto e um quadro pendurado na parede nós havíamos nos mudado há poucos dias para aquele apartamento. A janela estava aberta e deixou entrar uma súbita ventania trazida por um ciclone que se aproximava e que derrubou o quadro com uma de suas quinas diretamente na minha cabeça frágil de criança, rompendo e rasgando a fina pele da minha moleira. Levei a mãozinha até o ponto da dor e quando avistei a ponta dos meus dedos decorada com sangue vermelho, desesperei-me e corri até a sala chorando e gritando que me levassem imediatamente ao hospital. Naquela época qualquer sangramento na cabeça, por menor que fosse, representava para mim sério risco de vida. Ou melhor sério risco de morte. A cabeça sempre foi muito importante para mim, principalmente na infância, quando eu sentia que era dentro da cabeça que toda a existência se dava. Agora mesmo, ao escrever estas memórias, senti-me tonto e ameaçado por um pensamento indesejado: tudo o que é meu não sou eu, certo?; tudo o que é meu é extrínseco ao meu eu; sendo assim, se eu falo da minha cabeça, minha cabeça não sou eu; mas tenho a forte impressão de que o eu fica na cabeça (ou mente), e imagino que vocês também a tenham; aliás, como vocês viram algumas frases atrás, eu mesmo posso falar de mim; mais do que isso, eu posso falar do meu eu; e se falo do meu eu, isso sugere que meu eu é extrínseco a mim mesmo; grandes paradoxos; como é possível saber, então, o que exatamente é esse eu ou se ele realmente existe? Caralho deixa eu afastar esse pensamento! Às vezes a importância da cabeça para mim se acentuava tanto que minha cabeça acabava sugando o resto do meu corpo para dentro dela, e eu em vez de andar com minhas pernas ficava rolando de um lado a outro, eu = minha cabeça. Deram-me um copo d’água com açúcar para que eu me acalmasse e tentaram me convencer de que tinha sido apenas um pequeno machucado inofensivo, que a pele da moleira logo se regeneraria e meu crânio voltaria a se fechar, o que eu não engoli com facilidade, nem com a ajuda do líquido que me deram. Continuei chorando e tremendo, muito preocupado, acreditando que aquela poça de sangue na qual eu mergulhava a ponta dos meus dedos poderia representar minha futura (breve) morte. Para que eu me acalmasse de vez, mas chateados por terem que parar de assistir a novela, levaram-me ao apartamento de um vizinho que era médico para que ele me aliviasse e me deixasse mais seguro de que não eu corria o menor risco de vida. Ou melhor o menor (e muito menos o maior) risco de morte. Ou melhor, não ou pior! Ele me examinou minuciosamente, com muita atenção e curiosidade, um sorrisinho egoísta no rosto como um cientista que descobre uma fórmula nova, e após exigir toda a sorte de exames (que bom que exigiu sorte, porque se exigisse todo um azar dos exames me deixaria ainda mais nervoso) cujos resultados diagnosticaram quatro letrinhas maravilhosas: A, R, T, E.

MÉDICO: Seu filho a partir de agora, madame, é irremediavelmente um artista. O quadro que caíra na minha cabeça era um original de Paul Klee. A quina do quadro, ao rasgar a finíssima pele da minha moleira, abriu uma pequena fresta no meu crânio, e através desta brecha entraram duas gotas de tinta vermelha que pingaram do quadro, levemente derretido pelo calor de 45 graus que fazia aquela tarde, tinta que havia sido misturada pelo próprio Klee em seu ateliê e que consequentemente continha o gene, o germe, o verme do artista, que se infiltrou e tomou meu cérebro por inteiro. Desde muito cedo eu já possuía sérias propensões, sérias tendências artísticas, caralho, mas aquele acidente fez de mim um artista por definitivo, sem qualquer sombra de dúvida possível, como se artista, a partir dali, fosse meu DNA, meu sobrenome, um nome que não se separa do meu de maneira alguma, que não se separa do meu nome, do meu eu, do meu Ser: um nome sobre o meu. O predicado imutável de minha pessoa. Então, a partir daquele dia, dizer meu nome implicava dizer artista estava subentendido dirigir-se a mim implicava se dirigir a um artista. Antes de homem, eu era artista. Antes de ser humano, eu era artista. Aliás, eu não era artista; eu sou artista, no presente. No presente, no passado e no futuro, mas sempre no presente. Eu era, eu sou, eu serei, sem dúvida, artista. Artista é dos meus predicados aquele que se antecipa a todos e não dá lugar a nenhum dos outros predicados que eu possivelmente possa ter. Estável. Imutável. Inabalável.

Que sorte, a minha. De outro modo, imaginem, eu só seria de fato artista enquanto estivesse executando o meu trabalho de criação, no ateliê, no gerúndio, apenas nestes momento de ação eu poderia dizer a mim mesmo e aos outros que eu era (sou) artista. No dia-a-dia, no cotidiano, não fosse o acidente, tudo me seria extremamente doloroso, pois qualquer outra coisa que eu fizesse que não fosse arte incitaria o meu cérebro a me gerar dúvidas quanto a ser ou não ser artista, quanto a ter ou não ter dons artísticos. Nesse aspecto, aquele mal me veio para bem. O acidente veio para me fornecer tranqüilidade eterna. Se não fosse assim eu precisaria renunciar a todas as outras coisas da vida, da minha vida, em função da segurança em relação ao predicado de artista. Não me envolveria com mulheres, pois o fazendo estaria exercendo o papel de homem, estaria sendo homem, estaria preenchendo e ocupando a lacuna do predicado que fica logo ao lado da lacuna do sujeito (eu, eu sou, eu tenho) com a palavra homem. Isso poderia ser muito prejudicial ao meu principal papel no mundo, que era (e ainda é, e ainda será) ser artista. Aliás, papel não chumbo; ferro; metal. Se eu relaxasse demais sendo homem, se eu me deixasse levar por inteiro pelo prazer de ser homem, isto é transar com mulheres, ser = transar, seria inevitável deixar de lado por um momento o predicado de artista para me dedicar ao prazer sexual, e talvez, nesse breve momento de relaxamento, distração e perda do domínio, meu lado artístico se desfaria, se desintegraria, e depois após a relação sexual quando eu fosse recuperar meu lado artístico, não conseguiria mais acessá-lo; só restaria para mim o predicado de homem, impedido de ser ao mesmo tempo artista. Você não deveria ter se deixado levar! eu diria para mim mesmo, chorando. Seria preciso que eu ficasse o tempo inteiro atento para ver se ainda possuía aquela preciosa faceta da minha essência e personalidade, nunca podendo estar à vontade com as outras delícias da existência. Ou então, teria que foder pintando; mesmo que fosse pintando mentalmente, distante do momento presente, sem a dedicação e concentração necessárias para satisfazer a mulher ou satisfazer a mim mesmo. Todo o resto das coisas que existiam (e ainda existem) para ser feitas, tudo o que não é arte, afastar-me-ia, potencialmente, do centro, do âmago do meu ser. Do âmago artístico do meu ser artístico. Enquanto eu estivesse sendo pai, por exemplo, onde ficaria o artista? Enquanto eu estivesse sendo jogador de xadrez, por exemplo, em que canto descansaria o artista? É esse o problema: nenhum descanso é seguro. Quem nunca prolongou o tempo de vigília, quem nunca forçou a insônia, com medo de dormir e nunca mais acordar? Não há nenhuma garantia. Bom, felizmente para mim, eu posso ser homem e artista ao mesmo tempo, a hora que eu quiser, pois meu cérebro estava (está) irremediavelmente contaminado com o néctar vermelho de Paul Klee. Posso relaxar sendo homem, sendo jogador de futebol, sendo qualquer coisa, que no fim é certo de que ainda serei um artista. A hora que eu quiser. Agora que eu quiser. Graças às quinas!

E quanto a vocês, outros artistas do mundo, fadados à insegurança como fazem para suportá-la? Vocês que, de uma hora para outra, da noite para o dia, podem vir a descobrir a verdade, que pode acabar revelando que vocês não são verdadeiramente artistas... Que tudo não passou de uma mentira, de uma auto-ilusão... Que vocês tiveram um relâmpago de criatividade, talvez, numa certa época da vida, mas agora tudo o que resta é seguir uma outra carreira e assumir uma impossibilidade... Pois a vida é assim, cheia de limitações, impossibilidades e desejos não realizados, não realizáveis e, por fim, e pôr fim, e... enfim. Pois a vida é cheia de ameaças; cheia de coisas que amamos mas que infelizmente não são feitas para nós, coisas que amamos mas tudo o que podemos fazer é admirá-las à distância, de longe, na posse de outros. Pois antes daquele acidente, quando eu tinha quatro ou cinco anos de idade, todo poema que eu escrevia, cada palavra que eu colocava no papel, além de ser a expressão de um sentimento, além de ser a execução de uma idéia, era um teste para mim mesmo, uma constatação, uma tentativa de alcançar uma resposta definitiva para a seguinte pergunta: Sou ou não sou poeta? Ao final do poema, na última sílaba da última estrofe que eu deitava no papel, eu desejava que a resposta, acompanhada de um brilho intenso, fosse positiva. Sim, sorria! Você é mesmo poeta! Hoje, graças às quinas, não sofro mais destas inseguranças.

2 comentários:

Grenissa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Grenissa disse...

Pareceu-me memórias.