quinta-feira, 10 de maio de 2007

Pesadelo #6

A professora distribuía as provas corrigidas. Jean nunca tinha tirado uma nota baixa sequer em toda a sua existência. Melhor dizendo, quer dizer, melhor escrevendo, Jean nunca tinha tirado sequer uma nota baixa em toda a sua existência. A prova era de múltipla escolha. Jean não tinha muita certeza de que se dera bem daquela vez. Jean era um garoto indeciso, por isso tinha mais dificuldade em provas de múltipla escolha. Se a prova tivesse sido de única escolha, teria facilitado as coisas para Jean. É um problema sério não ser decidido ou impulsivo diante de uma multiplicidade. Ouviu seu nome saindo da boca da professora e levantou-se muito rapidamente, ansioso para conferir sua nota, causando um barulho estrondoso ao arrastar a carteira consigo com violência. A carteira estava no bolso de trás de sua calça. Voltou decepcionado, percebendo sua carteira torta, desarrumada, destacada de todas as outras. Era o primeiro zero de sua vida. Mentira. Inúmeras de suas provas já tinham vindo com um zero marcado, mas, até aquele dia, todos os zeros sempre tinham vindo acompanhados pelo número um à esquerda. O zero daquele dia estava sozinho. O que aconteceu com o número um? Perdeu-se? Antes mesmo de se sentar deu meia-volta e resolveu argumentar com a professora. Disse que ela era uma fascista tirana filha da puta que não respeitava a opinião dos outros, pois tudo – tudo! – nessa vida é questão de ponto de vista, não existem verdades absolutas, se ele achava que a letra B era a resposta certa e não a letra A, ela não poderia dar-lhe um zero por causa disso, a letra B era a verdade dele e esta deveria ser respeitada pelo bem da diversidade, já que a prova é de múltipla escolha, que se permita, então, que as escolhas sejam múltiplas, se uma professora acha que a resposta certa é a letra A e tenta impor esta visão unilateral a toda uma turma de mais de trinta alunos, então ela é uma fascista, quer que todos sigam a sua verdade de forma arbitrária e por isso merecia morrer. Merecia ser queimada nas fogueiras crepitantes da contra-inquisição.

Pela primeira vez estou contando para alguém sobre o meu velho amigo Jean, uma figura curiosa, peculiar, por diversos motivos. Primeiramente, só para vocês terem uma ideia do que eu estou falando, ele era o ser humano mais fino do mundo. Fato registrado, inclusive, no livro dos recordes: ele era muito alto, tinha dois metros e cinco centímetros de altura, porém, visto tanto de frente quanto de perfil, tinha apenas dez milímetros de largura, ou melhor, de finura. Ao longe, dificilmente era enxergado. Sua empregada domesticada, quer dizer doméstica, uma vez o encaixou na base de uma vassoura e varreu a casa inteira se perguntando de onde vinha aquela voz fina e aguda que não parava de reclamar alguma coisa. Só no fim do expediente é que ela se deu conta de que tinha confundido o próprio patrão com um cabo de vassoura & Jean se enroscou ao redor do pescoço dela como uma corda viva e arrumou tudo para que parecesse suicídio, o que a polícia e a imprensa engoliram com facilidade, com a ajuda de uma cervejinha. No dia seguinte, primeira página: empregada doméstica tira a própria vida enforcando-se com o próprio patrão. Enfim, conforme foi envelhecendo Jean foi ficando mais largo, foi ganhando largura, aos vinte anos tinha uns trinta metros de largura. Mas a época de sua vida que nos importa no presente momento é a época em que Jean tinha oito milímetros de largura e apenas oito anos de idade. Sua mãe precisava remendar uma saia velha de que gostava muito e confundiu Jean com o material de costura, mais precisamente com a linha, e o costurou à máquina na barra de sua saia. É uma história triste, e as lágrimas escapam dos meus olhos, agora, ao contá-la para vocês, e eu peço que vocês também chorem. A mãe de Jean, protetora e paranóica como era, fez circular na cidade milhões de cartazes com a foto do filho, oferecendo inclusive boas recompensas em troca de informações úteis que a ajudassem a localizar o paradeiro do menino. O que me lembra algo que aconteceu na minha casa, mais ou menos naquela mesma época, quando também eu tinha apenas oito anos – de idade. Nossa tartaruga ficou desaparecida por semanas, várias semanas, chegamos a desistir de procurá-la, chegamos a conformar-nos com o seu desaparecimento, e de repente, enquanto procurava documentos importantes, a encontrei no interior de uma gaveta de cabeça para baixo, com a barriga para cima, balançando os membros, desesperada para poder andar novamente, cercada de papel e entulho, incapaz de virar o próprio casco. Similar ao que aconteceu a Jean. Todos já tinham perdido a esperança, que em certos casos é a primeira a morrer. Apenas dois anos depois, quando Jean já tinha completado dez anos de idade, descobriram que ele havia passado todo aquele tempo preso à barra da saia da mãe. Na verdade, sendo a barra da saia da mãe – o que era ainda pior. A saia foi enviada a uma costureira chinesa especialista nestes casos e Jean foi removido com sucesso, em perfeito estado. Em perfeito estado fodido. A nossa tartaruga, chamada Joana, era engraçado, os anos passavam e ela continuava minúscula, cabia na palma de minha mão. Nós não compreendíamos porque ela não crescia, até que um veterinário nos alertou: nos a criávamos dentro de uma caixa de sapato, ali colocávamos sua água e sua comida, alfaces e uvas, pois morávamos em apartamento e não havia nenhum quintal ou jardim onde deixá-la solta, e deixá-la solta no apartamento ofereceria sérios riscos a ambas as partes, ela poderia ser pisoteada pelos nossos pés, e nossos pés poderiam pisar acidentalmente em seu xixi ou seu cocô, e isso não seria lá muito legal; o veterinário disse que a tartaruga, vivendo numa caixa, um espaço fechado e tão pequeno, não cresceria mesmo, permaneceria minúscula para sempre, proporcional ao seu habitat; mas se a soltássemos ao mundo exterior, um quintal amplo, por exemplo, sem barreiras estreitas, ela cresceria muito, e rapidamente. E, sem dúvida, o mesmo se dá com as pessoas – em vários aspectos.

Depois do episódio da saia, a mãe de Jean ficou insuportavelmente mais protetora, mais do que antes já era; transformou-se numa super heroína, a Super Protetora. Sabem o que ela fez com Jean? Trancou-o no quarto, jogou a chave fora e saiu espalhando para todo o mundo que ele era um menino muito caseiro, um filho exemplar. Enquanto isso, louco para sair, louco para conhecer os perigos e os fascínios da rua, do mundo exterior, Jean tirava lasca por lasca da porta de madeira com suas unhas, que a cada quinze minutos perdiam um pedaço e seus dedos sangravam. Passados alguns meses Jean já não tinha mais unhas mas continuava a raspar a madeira com os dedos em carne viva, e a carne se abria em contato com as farpas e espirrava sangue aguado de vez em quando. Passados alguns meses mais Jean não tinha mais dedos, raspava a madeira com um cotoco de braço que lhe restou, até que seu braço estava quase que por inteiro gasto e a porta se desfez, ele raspou até a última lasca, até a porta não mais existir – mas em compensação seus braços não mais existiam. Quando sua mãe o encontrou sem braços, ficou muito triste e chorou, pensando “se ao menos ele tivesse perdido as pernas!”, pois sem os braços ele ainda poderia se locomover e fugir para longe dela. E foi o que Jean fez. Fugiu de casa levando consigo apenas uma trouxinha vermelha de roupa presa à ponta de um cabo de vassoura. NOTA: Esta fuga será relatada mais tarde, num horário mais propício.

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